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O tempo ajuda a curar quase tudo. Esquece, atenua, suaviza, resolve. Mesmo os traumas. Embora alguns, e para alguns, a coisa possa ser mais difícil. "Baleia fora de água". Têm noção do impacto que uma expressão destas dita repetidamente pode ter numa criança obesa de oito ou nove anos? Ou mesmo num adolescente de 12 ou 13? Eu ouvia-a dezenas, centenas de vezes. Eu e todos aqueles que tinham peso a mais. "Gordo", "Badocha" ou mesmo "Piranha" (numa homenagem a esse clássico da TV dos anos 80 chamado "Verão Azul") eram algo ainda aceitável, mas "baleia fora de água" deixava-me fora de mim. Era uma crueldade própria de crianças, eu sei, mas magoava. Ficava a repetir-se cá dentro, como uma matraca. Uma vez, explodi. Um parvalhão na escola chamou-me "Baleia fora de água" e eu, com um ar de superiodade intelectual e simulando indiferença perante o mimo, respondi-lhe: "Pois é, sou baleia fora de água, mas isto com uma dieta, passa. Agora, tu és um estúpido. E serás sempre um estúpido. Não há nada que possa melhorar isso". E virei-lhe as costas. Ainda pensei que o gajo viesse atrás de mim: ou para insistir na conversa ou para me dar um murro, mas não. Ficou quedo e mudo. Provavelmente, a pensar no que lhe disse. Para mim, aquele foi um momento de viragem. Fiquei orgulhoso da minha resposta e decidi interiormente que não voltaria a deixar-me afetar por aquilo que de malicioso os outros dissessem sobre a minha aparência física. 

Se o tempo ajuda a curar quase tudo, a idade também ajuda a colocar quase tudo em perspectiva. E à medida que fui crescendo, aprendi a valorizar umas coisas em detrimento de outras, e a fazer das minhas fraquezas, forças. Percebi que a única forma de calar os outros é dando o melhor de nós. Foi assim que cresci profissionalmente. Procurando sempre fazer melhor. Tentando melhorar a cada erro cometido. É assim hoje ainda. Procurando refletir sobre o que faço (na profissão, na vida...), percebendo como posso melhorar.

Quando me perguntam por que razão só agora me passei a preocupar com a minha saúde, a minha resposta não é clara. Não sei. Eu já me preocupava antes, de vez em quando, mas intervalava a reflexão entre rissóis e folhados de Chaves. Com demasiada frequência, admita-se. O diagnóstico oficial da Diabetes, a 19 de junho, foi o click, claro, mas dois meses antes já me havia inscrito no ginásio e tinha jurado a mim próprio que desta vez era a sério. E, sim, eu já sabia que era diabético. Os sintomas que eu tinha não me deixavam grandes dúvidas. Acho que há um momento para tudo. A idade ajuda-nos a perceber isso com mais clareza. 

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É bom, porém, não esquecer o que deixámos lá atrás. Por mais resolvido que eu, gordo, tenha crescido, é sempre bom não esquecer algumas coisas. Por mais que eu sempre me tenha despido na praia sem problemas de mostrar as banhocas e as mamas, há sempre uma "baleia fora de água" que vem à tona. Há sempre gente que olha de espanto quando se cruza à beira-mar connosco. Há sempre uns tipos que apontam o dedo e que dizem uma piada, seguida de gargalhada geral. E é por isso que resolvi escrever este post.

E é por isso que escolhi o título que escolhi. Há cinco coisas que nunca se devem perguntar/dizer a um gordo (a não ser em ambiente clínico ou familiar, claro...):

 

- Quanto é que pesas?

- Não faças uma dieta, não...

- Estás outra vez mais gordo!

- Não tens espelhos lá em casa?

- Ouve lá, onde é que arranjas roupa desse tamanho?

 

As cinco perguntas revelam uma grande falta de sensibilidade. Um gordo sabe que é gordo. Um gordo tem espelhos em casa. Um gordo sabe que tem de perder peso. Um gordo sofre à procura de roupa para o seu tamanho e fica constrangido quando, numa loja, é obrigado a responder com um "pois, mas não chega" à frase da empregada "este tamanho dá de certeza para si, é o maior que temos cá". Perante este momento, o gordo pensa: "porra, sou mesmo um bisonte! Nem mesmo o maior que eles têm cá dá para mim. Talvez vá ao Tecidos Vidal comprar pano para um toldo e faça uma túnica!"

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Ao contrário do que muitos pensam e disseram na altura em que o programa chegou a Portugal, formatos como o "The Biggest Loser" ("O Peso Pesado", SIC), entre outros, foram muito importantes para as cabeças portuguesas. Para as cabeças dos gordos, em primeiro lugar. É sempre bom sabermos que não estamos sozinhos no mundo e que há casos ainda mais graves dos que os nossos. Isto não resolve nada em nós, mas, acreditem, alivia. Um gordo que pesa 145 quilos olha com respeito para alguém que se expõe na televisão, que se pesa numa balança, e que vê aquilo marcar 173 quilos. Há uma identificação, uma espécie de projeção, quase uma irmandade. Em segundo lugar, e mais importante, creio que programas como "O Peso Pesado" vieram alertar os portugueses para a normalidade da obesidade mórbida. Normalidade no sentido de "há gente assim, que tem de lutar, que tem de sofrer". Normalidade no sentido de "esta gente que está a conseguir isto merece o nosso respeito, o nosso aplauso, porque revela força de vontade, porque não tem receio nem vergonha de se expor".

Os "The Biggest Loser" da vida chegaram por razões pouco samaritanas: é hipocrisia pensar que chegaram para ajudar o mundo. Não, chegaram porque toda a gente gosta de espiolhar pelo buraco da fechadura e ver "gente assim" (são obesos mórbidos, podiam ser anões, homens de quatro pernas ou mulheres de bigode). E isso gera audiências, numa indústria que movimenta milhões de euros como a televisão. Mas, apesar de tudo, ainda bem que chegaram, porque ajudaram os portugueses (e falo nos portugueses porque nos Estados Unidos a obesidade, por tão frequente e intensa, não é tabu) a olhar para esta realidade, a saber respeitar os gordos e a perceber que a obesidade é uma patologia, a acordar para a alimentação saudável, a despertar para o gravíssimo problema que, enquanto sociedade, temos em mãos chamado obesidade infantil.

Estou a escrever este post hoje, 22 de outubro de 2016, porque hoje é um dia histórico nesta minha caminhada. Tão histórico como o 19 de junho. Pela primeira vez, em cima da balança, baixei de uma fasquia mítica que havia ultrapassado aos 24 anos. Ou seja, aos 24 anos eu atingi um peso e, nos últimos 18 anos, nunca consegui baixar desse peso. Foi sempre a subir. Como já vos disse que não se pergunta o peso a um gordo, já sei que não vão fazer a pergunta, mas antes que se ponham a adivinhar, esclareço já: não, ainda não é a barreira psicológica dos dois dígitos. Seria bom que assim fosse, mas ainda falta muito. Mas os 26 quilos que perdi desde abril fizeram-me baixar de uma fasquia mítica que ultrapassara aos 18 anos. Este é o meu "The Bigest Loser". Por enquanto, uma parte dele é só minha, longe dos holofotes. Haverá um momento em que partilharei convosco os valores. Por enquanto, ainda há constrangimentos que não consigo superar. Mas é fácil fazer contas, perceber o meu entusiasmo e o meu orgulho. E esse faço questão de o partilhar aqui. 

Haverá gente que, cansada destes posts e das suas réplicas nas minhas redes sociais, dirão: "outra vez? mas este gajo agora só fala disto?". Falo daquilo que quero, daquilo que é a minha batalha mais importante. Falo porque preciso. Por mim. Falo porque é preciso. Pelos outros. Quem gosta de mim, quem me admira, quem é meu amigo, quem tem orgulho em mim perceberá o quão importante isto é. Isto e tudo o resto: a minha profissão, a minha empresa, os meus alunos, os meus textos, as minhas ideias, os meus amores. O Nuno, o Tipo 2, é uma soma disso tudo. Com virtudes e defeitos. E com uma imensa vontade de viver e ser feliz.

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Feira dos Tecidos. Promoções! Vendo barato!

por Nuno Azinheira, em 20.10.16

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Seis meses depois de me ter voltado a inscrever no ginásio e quatro meses após a descoberta de que sou diabético Tipo 2, há passos firmes que foram dados. Mudanças profundas. Interiores, em primeiro lugar. E que se refletem muito claramente no exterior (aparência física) e na minha saúde. Ao longo destes meses, tenho deixado por aqui as marcas dessas mudanças, tenho partilhado convosco, aqui no blogue ou na página de Facebook do Tipo 2, as minhas opiniões, a minha nova alimentação, a minha prática continuada de exercício físico, os desafios que me coloco a mim próprio e as motivações que se seguem.

Confesso-vos que me é agradável e motivador ver os olhos de espanto e ouvir os comentários daqueles que não me veem há quatro ou cinco meses. Para os que comigo lidam todos os dias, as mudanças também são notórias, mas não é possível ter essa percepção tão clara. Eu, que há 42 anos me aturo, convivo comigo diariamente e, sim, vou sentindo quase todos os dias as alterações no meu corpo e no meu metabolismo. Primeiro, nas coisas práticas:

- A minha tensão está controlada e em valores que oscilam entre os 12/7 e os 13/7;

- A minha glicose no sangue (glicemia) varia, em média, entre os 85 (antes das refeições) e os 120 (depois das refeições) mg de açúcar por decilitro de sangue (os valores referência dos diabéticos vão até aos 160 mg/dl);

- O meu colesterol e triglicéridos estão em valores saudáveis;

- Passei a dormir perfeitamente, sete/oito horas por dia, sem acordar a meio da noite e com um sono pendular (acordo religiosamente às 08.30, sem despertador);

- Deixei de ter azia, sensações de enfartamento, pernas inchadas, dores nas costas;

- Aumentei a minha resistência física: hoje subir três andares de escadas ainda me deixa cansado, mas não à beira de um colapso;

- Perdi 24 quilos;

- Perdi 25 centímetros de perímetro abdominal, ou seja de barriga, a zona mais perigosa dos obesos, porque é lá que está concentrada a gordura visceral, aquela potencialmente mais perigosa para o coração;

- Baixei a matéria gorda do meu corpo em 5 pontos percentuais.

Isto é o mais importante de tudo: é o que me devolve anos de vida e, sobretudo, qualidade de vida.

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 A acompanhar a isto, há o outro lado: a roupa. Em seis meses, estou a uns passos de deixar de vestir na secção de "Tamanhos Grandes", apesar de ainda continuar a ser grande. Em calças, por exemplo, tenho tido grande dificuldade, porque 25 centímetros de cintura perdida significa baixar cinco ou seis números de calças (que saltam de dois em dois, portanto 10 ou 12!). A estrutura do corpo mudou também. A largura de ombros é hoje menor, o que faz que as camisas que vestia não as possa mais vestir. As costas endireitaram, porque o peso que a coluna suporta é menor, a barriga é menos saliente.

Há dois dias decidi fazer uma limpeza nos meus armários. Tinha de ser. E o resulado foi muito divertido, mas ao mesmo tempo preocupante. Não tenho hoje um fato, um blazer ou um casaco que me fique bem. Metade das camisas passaram a ser camisas de noite.

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E, das três, uma: ou o OLX cria uma secção de "Tamanhos Grandes" para eu poder fazer alguma receita com a roupa que já não visto (muita dela de marca e alguma dela com muito pouco uso); ou faço uma venda de garagem (!) ou lanço uma promoção tipo "Feira dos Tecidos. Novos padrões para cortinados. Vendo barato!".

É óbvio que esta é a chamada "boa dor de cabeça". Claro que vou ter de gastar dinheiro em roupa, e muito provavelmente, não rentabilizo em nada a roupa que já não uso. Mas é um ótimo sinal e altamente moralizador. Felizmente, nos últimos anos eu cometia um erro muito frequente: comprava camisas ou casacos uns números abaixo do que vestia para me incentivar a perder peso. Algumas dessas peças de roupa ficaram arrumadas no armário durante dois anos, sem nunca terem sido usadas. Passaram agora a ter serventia. Mas há outro problema: o investimento em roupa tem de ser tranquilo e em pequenas quantidades de cada vez. Porque a batalha contra o excesso de peso está longe de terminar e estou motivado a continuar, mesmo sabendo que os progressos serão, a partir de agora, mais lentos e mais difíceis. Mas eu vou continuar a perder peso, vou continuar a moldar o meu corpo. Portanto, estar a comprar agora muita roupa pode significar a prazo voltar a ter o mesmo problema. Vamos com calma, pé ante pé. Continuando a lutar, sem desistir. Sabendo que cada passo que dou é um passo para me sentir mais forte e mais saudável. E sabendo que isto só se consegue com a medicação antidiabética que tomo e, sobretudo, com a articulação de dois critérios fundamentais na mudança do estilo de vida: uma alimentação variada, de baixos hidratos de carbono (açúcares), e a prática sistemática de exercício físico. E quando digo sistemática não significa horas de caminhada ou de corrida todos os dias. Nem toda a gente tem paciência, e sobretudo tempo, para isso. Aliás, deixem-me que vos diga: para o metabolismo são mais frutuosos 20 minutos de caminhada a pé todos os dias do que duas horas de corrida uma vez por semana. Por falar nisso, escrever este post atrasou-me. E já não vou a tempo de caminhar agora: vai ter de ficar mais para o fim do dia. 

 

 

 

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A importância de não nos fecharmos numa concha

por Nuno Azinheira, em 15.10.16

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Acordei. 08.17. Lá fora chovia a cântaros. Era forte o som da chuva a cair nos telhados de Lisboa. As previsões apontavam para a probabilidade de umas pingas, sim, mas nada que pudesse assustar. E logo hoje que me tinha inscrito, pela primeira vez, nos Sábados Desportivos que a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal promove em dois sábados de cada mês. Ainda por cima, tinha vindo aqui ontem desafiar-vos a virem comigo e a conhecerem-me pessoalmente, depois destes meses em que temos partilhado desabafos, motivações, frustrações, preocupações e experiências de vida.

Não, eu não podia faltar. Mas chovia. Lá fora chovia a cântaros. Continuava forte o som da chuva a cair nos telhados de Lisboa. Peguei no telemóvel, confirmei na aplicação de meteorologia que, sim, a probabilidade de chover ao longo do dia era forte (60%). Batia certo. "E agora? Vou de calções e T-Shirt para o Lumiar e corro o risco de apanhar uma molha e não estar lá ninguém?" ou "Falto ao meu compromisso, invocando a ira dos deuses e fico na cama?". 

Não podia ser. Os últimos quatro meses têm sido de batalha, de coragem, de sentido de responsabilidade e, sem que esse fosse o meu objetivo inicial, tornaram-me também um exemplo, uma fonte de inspiração aos olhos de que me lê aqui no blogue ou no Facebook. Não queria entrar numa de "Bem prega Frei Tomás". Não podia prometer uma coisa e depois falhar. Apenas por conforto de ficar na cama.

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Levantei-me a medo. Fui à janela. Ao fundo a Ponte 25 de Abril, o Tejo e umas nuvens carregadas. Os vidros molhados. A chuva caía. Voltei a deitar-me e a enroscar-me na almofada. Nisto, providencialmente, toca o despertador, que eu tinha colocado para as 08.30. Simbólico. Se é para despertar, é para despertar. 

Levantei-me, tratei do pequeno-almoço, da medicação e de mim. Vesti os calções e a T-Shirt, calcei os ténis. Na mochila coloquei uma garrafa de água, uma maçã e duas bolachas de fibra e gengibre, mais o glicómetro e a carteira. Por via das dúvidas, preparei a mochila para o ginásio. Se lá chegasse ao Lumiar, e não estivesse ninguém, ia praticar exercício indoor.

No caminho não parou de chover. Mas eu não desisti e segui a minha rota, em busca do Parque das Conchas, no Lumiar, onde nunca tinha entrado na vida. Quando cheguei e estacionei o carro, vi dez pessoas à porta da entrada junto à saída do Metro (era o local combinado). Eram todos mais velhos do que eu. Não sei se tinham "ar de diabético" (o que é isso, afinal?), mas percebi que, sim, aquela era a minha gente. Gente como eu, interessada em fazer exercício, sofrendo da mesma doença do que eu, e procurando, melhor ou pior, aumentar a sua qualidade de vida. Na frente do grupo, um amigo antigo, o João Antunes,  velho companheiro dos tempos dos relatos na saudosa Rádio Ocidente. Ele já tinha prometido ontem que viria, quando eu desafiei toda a gente. Prometeu e também cumpriu. Nos minutos seguintes, juntaram-se mais cinco ou seis pessoas. E conheci a Ana Rodrigues, a professora de Educação Física que trabalha para a APDP e que, percebi logo, tinha já uma grande empatia com todos ("os meus meninos", como disse repetidamente). Apresentámo-nos, e a seu pedido falei-lhe do meu historial. As duas horas que se seguiram foram excelentes: caminhada de três quilómetros pelo parque, muito bonito, com zonas relvadas e outras de pinhal, subidas e descidas; exercícios de força, flexões, elasticidade e resistência, e alongamentos no final. Gargalhadas, histórias de partilha e de superação. Antes e depois do exercício medimos a glicemia. E todos constataram a descida dos valores com a prática da atividade.

No final pedi para tirar uma selfie, uma foto de família, que, expliquei previamente, seria para publicar aqui. Ninguém se importou e todos apareceram para a foto. No fundo, a ideia era essa. Partilhar. É esse o caminho, o objetivo. Uma partilha entre iguais, para desmistificar a diabetes e perceber que a vida pode ser melhor mesmo com a doença. No meu caso, seguramente, sobtetudo por causa da doença. Dentro de 15 dias, se não tiver qualquer compromisso inadiável, voltarei lá. Fiquei fã. E atenção: a iniciativa, que é de inscrição gratuita, não é válida apenas para diabéticos. Qualquer um pode aparecer, e juntar-se ao grupo. Venham. O pior que pode acontecer é fecharem-se na vossa própria concha...

 

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Está na altura de nos conhecermos, não?

por Nuno Azinheira, em 14.10.16

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Tenho um desafio para vos fazer. A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal promove todos os meses uma iniciativa chamada "Sábados Desportivos". Por estranho que possa parecer, decorre aos sábados! Este sábado, dia 15, é um desses dias. Decorre no Parque das Conchas, no Lumiar (a concentração é na entrada mais perto à saída do Metro, linha amarela), e, segundo me foi explicado, a atividade é monotorizada por um professor de Educação Física especializado na temática da Diabetes.

O Sábado Desportivo decorre entre as 10h00 e as 12h30 e a entrada é gratuita. O público é muito heterogéneo: gente magra, gente gorda, mais novos (já participaram crianças com dez anos), mais séniores (a APDP disse-me que há um senhor comm 78 anos que participa de vez em quando...). As duas horas e meia são compostas de caminhada e de exercícios ligeiros que o professor nos pedirá de acordo com as nossas capacidades.

Nunca participei em nenhuma destas atividades, mas acho muito meritório o trabalho clínico, social e de integração que a APDP faz. E, por isso, decidi participar na edição deste sábado. As explicações que me foram dadas por telefone chegaram para me convencer. E creio que podem convencer-vos a vocês também. Para os mais velhos: "não vai só malta nova!". Para os mais novos: "não vão só 'cotas'!". Para os magros: "não vão só gordinhos!". Para os gordinhos: "não vão ser os únicos barrigudos!".

Assim sendo, só há duas coisas que vos fará faltar: ou o trabalho, ou a inércia. Se estão a trabalhar, está justificado. Se é mesmo por inércia, toca a combatê-la, a tirar o rabinho da cama e vir experimentar pela primeira vez. Tem outro aliciante: ficam finanalmente a conhecer o Tipo 2.

Podem inscrever-se  através do 213 816 112. É melhor para eles terem uma noção do número de pessoas que terá o grupo. Mas se quiserem aparecer por lá sem dizer nada também podem. Muito importante: não têm de ser diabéticos nem sócios da APDP. A iniciativa é aberta a sócios, não sócios, pacientes, acompanhantes, não diabéticos. Basta ter vontade em fazer qualquer coisa para sermos saudáveis.

Vá, tomem uma decisão! Façam exercício físico (é um dos eixos fundamentais dos resultados que já obtive em quatro meses: 22 quilos perdidos, 23 centímetros de perímetro abdominal perdidos, glicemia estabilizada nos valores normais, colesterol e triglicéridos impecáveis, tensão arterial controlada). Não se desculpem com o tempo: sim, vão estar nuvens, sim, pode haver umas pingas, mas não vai chover a potes. Não inventem desculpas. Vamos?

Já vos disse que vou lá estar? ;)

 

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Bom domingo! Tenho andado um pouco arredado do blogue, porque a minha vida está um relativo caos. Com o arranque do ano letivo na ETIC (sou coordenador dos dois cursos de Jornalismo da escola), os meus dias têm sido cheios de reuniões com alunos, professores e direção. É natural, as aulas começam esta semana. Acresce a minha atividade corrente na Palavras Ditas, enquanto gestor, professor e jornalista, e dá para perceber que se o dia tivesse mais de 24 horas, ele estaria preenchido.

Não pensem, portanto, que vos abandonei. E, mais importante que isso, apesar de tudo, não temam que me abandonei. Não, o caminho que iniciei em abril no ginásio e em junho com a descoberta da Diabetes continua firme. Há passos sustentados dados em frente e que não voltam atrás. Não, desta vez, garanto, não voltam mesmo atrás. Por mim. 

Vamos então ao resumo da matéria dada: há uma semana participei pela primeira vez na minha vida numa prova coletiva, a Mini Maratona de Lisboa. Foram 6,5 quilómetros de emoções (a primeira vez é sempre especial), mas do ponto de vista físico foi uma prova pouco exigente, até porque estou habituado a caminhar em média 10 quilómetros.

Na terça-feira recebi excelentes resultados na Associação Protectora de Diabéticos de Portugal: mais seis quilos perdidos e mais  sete centímetros de perímetro abdominal deitados abaixo. No total, desde o arranque desta "Operação Saúde", já lá vão 22 cm na barriga e 23 quilos ao ar. É obra! 

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Na quarta-feira, aproveitando o feriado, bati o meu recorde pessoal de quilómetros percorridos: 17,8 km numa só caminhada. Saí de casa, percorri o bairro de Alcântara, cruzei a avenida de Ceuta, e segui pela Rua das Janelas Verdes, subi toda a Avenida Infante Santo (que não é fácil), atravessei o Jardim da Estrela, desci até ao Rato pela Álvares Cabral, subi às Amoreiras pela D. Pedro V (também ela uma avenida com uma inclinação bem acentuada), e depois rumei até ao Parque Eduardo VII. Do alto, contemplei a vista e desci: Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade, Rossio, Rua do Ouro, Terreiro do Paço, Cais do Sodré e de novo Alcântara. Mais de três horas a caminhar. Foi um treino exigente, sobretudo nas subidas, mas muito estimulante. O dia não acabou ali. À tarde estive a ajudar na inauguração do novo hospital veterinário do meu irmão Diogo e da minha cunhada Susana, a Alma Veterinária. Ao fim do dia, a aplicação do telemóvel não permitia ilusões: 19,2 km percorridos. Um dia fantástico, que, no entanto, deixou marcas físicas intensas nos músculos, de que só ontem comecei a recuperar.

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Curiosamente, enquanto escrevo estas linhas, recebo uma notificação no meu telemóvel de uma das aplicações que me ajuda no exercício físico. E o que diz a notificação? Que esta última semana foi a minha melhor de sempre no que toca a quilómetros percorridos. Este tipo de incentivos são fundamentais, sobretudo para alguém que, como eu, até há poucos meses, não andava a pé e fazia tudo de carro.

Nestes últimos dias de repouso físico, fui alertado por um amigo para um texto de um jovem estudante de jornalismo, que conheço pessoalmente, que é formando na Palavras Ditas (façam like na página de facebook, já agora!). O L. é aquilo a que se pode chamar um "gordinho": não é gordo no sentido de obeso, mas tem, de facto, uns quilos a mais. Nunca falei com ele sobre esse assunto (aliás, as nossas conversas, pouco frequentes, nas redes sociais limitam-se a assuntos da área do jornalismo e da formação profissional), nem sabia tão pouco que ele era leitor do Tipo 2.

O post que o L. escreveu no seu próprio perfil de Faceboook emocionou-me muito. Porque deu mais um sentido à decisão que tomei na minha vida e a que dei o nome de #escolherviver. É disso que se trata: entre morrer lentamente ou viver, eu escolhi viver. Quando confrontado com o texto do L., comentei-o, mandei-lhe uma mensagem e agradeci o gesto. Dei-lhe força para o início da sua batalha. E pedi-lhe autorização para falar dele aqui no blogue. Ele concedeu-ma.

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E o que diz o texto?: "Sim, este sou eu. Com 23 anos a caminho dos 24 e com uma idade metabólica de 38 anos, ou seja, o meu metabolismo porta-se como se eu tivesse esta idade. Este é o meu peso. E este é primeiro dia do resto da minha vida. Há 5 dias que não toco num doce ou guloseima. Para vocês não é nada, para mim é uma vitória (ainda que mínima). Muitos de vós não conhecem o jornalista Nuno Azinheira, e ele não sabe disto, mas foi ele que me inspirou através dos seus posts diários e da sua evolução. Ele usa uma hashtag chamada #escolherviver. Tem feito um percurso extraordinário na sua perda de peso e ganho de hábitos saudáveis. Ele não sabe. Mas foi ele que, sem o querer, me motivou com as publicações que tem feito. E fui eu que decidi que não quero ter diabetes (e tenho na família uma pessoa com essa doença, o que agrava), que não quero ter problemas de saúde por uma coisa que depende de mim. Única e exclusivamente de mim. E já tinha feito e desfeito dietas. Por estética, sempre. Já tinha ganhado e perdido peso. Desta vez, é a sério. Desta vez não é pela estética. Desta vez é pelo nosso bem mais precioso, a saúde. Posso vomitar o chão, como hoje tive vontade quando saí do ginásio porque há quase 3 anos que não me mexo, posso ficar com as pernas a tremer como se de um ataque se tratasse, como hoje, posso estar todo partido, mas o objetivo são os 70kg. Vai ser muito difícil, como eu nunca pensei que fosse (não consegui fazer mais que 8 abdominais), mas esta é a minha força - minha vontade. A minha motivação."

É um texto lindo, muito emocionante, porque escrito por um jovem consciente que não apanhou qualquer susto. Um jovem que decidiu mudar porque sim, porque quis, porque percebeu que pode ter uma vida melhor. É um texto lindo e emocionante porque assume que encontrou no meu exemplo uma força para desencadear a sua força. E isso toca-me muito, naturalmente. Tenho uma amiga de Facebook, também ela jovem, também ela estudante de jornalismo, que tem peso a mais. Há duas semanas disse-me, em jeito de questão, se poderia começar a fazer umas caminhadas comigo. Disse-lhe que sim, claro. 

Quando aqui cheguei à blogosfera, disse ao que vinha. Que não me queria esconder, que queria assumir publicamente o meu combate contra a Diabetes Tipo 2. Que este blogue seria o meu compromisso público, a minha força de partilha, e que se ele ajudasse outras pessoas em igual situação, me sentiria muito feliz. Hoje sinto-me muito feliz com esta dimensão da minha vida. O que já perdi em peso, em açúcar, em colesterol elevado, em tensão arterial desequilibrada, ganhei em anos de vida. É verdade que, daqui a pouco, à saída de casa, me pode cair um piano em cima, mas esses imponderáveis eu não controlo. Esta parte da minha vida, sim, eu controlo. E seria uma estupidez que, podendo controlar, podendo ditar a saúde e a minha qualidade de vida, não aproveitasse essa faculdade racional que os seres humanos possuem. 

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 Obrigado ao L. e a tantos outros que me têm incentivado de todas as maneiras. Obrigado aos que no Facebook, ao do Tipo 2 e ao meu pessoal, me dizem na brincadeira que hoje valho "metade" do que valia há seis meses. Obrigado aos que se espantam quando me veem. Obrigado às funcionárias das lojas onde me visto que já me trazem roupa oito números abaixo e que me dizem, com um sorriso, "mais uns meses e deixa de pertencer à secção "Tamanhos Grandes"". Obrigado aos que vibram com este meu sucesso. Obrigado aos que sorriem e me fazem likes. Todos fazem parte desta caminhada. Todos são responsáveis pelo facto de esta hastag do Instagram #escolherviver fazer cada vez mais sentido. Aos que ainda não acordaram, e são tantos!, está na hora. Acreditem: ninguem faz nada por nós. Nós (todos juntos) somos a nossa própria inspiração!

 

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Esta foto foi tirada hoje à porta Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal. À saída, claro. Não veem o sorriso? Mesmo que o vejam, não conseguem perceber a exata proporção do que sinto interiormente. Podem ter uma vaga ideia, mas não dá para perceber o turbilhão de sensações. Vocês têm acompanhado aqui este meu percurso, têm feito parte dele de forma entusiasta (foi por isso que criei este blogue, lembram-se?) e, portanto, é justo que compartilhe convosco aquilo que, em palavras, consigo partilhar. As lágrimas que me correram hoje, sem vergonhas nem pudores, à frente da médica, quando ela me mostrou os resultados das análises, isso não consigo descrever por palavras. Sei que me entendem. 

Acabo de sair da APDP e da minha terceira consulta, desde que a 19 de junho me foi diagnosticada a Diabetes Tipo 2. Nesse dia, tinha 329 mg de açúcar por decilitro de sangue. Hoje, três meses e meio depois, tinha 89 mg/dl. O melhor teste, porém, já aqui o tinha dito, é o da hemoglobina glicada (ou glicosada), o valor médio de três meses de glicemia. Esta é a medida de referência usada clinicamente para diagnosticar o quadro de diabetes e aferir a evolução do paciente.

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Pois, se bem se lembram (contei aqui!), a 2 de agosto, apenas com um mês e picos de mudança de estilo de vida, o meu valor ainda era muito alto (9,1%), se atendermos ao valor-referência: o ideal é que o número esteja abaixo de 6,5/7. Hoje, 4 de outubro, a minha hemoglobina é perfeita: 6,4%. Um valor de alguém saudável!

No que toca a pesos e medições, os resultados não poderiam ser mais inspiradores e recompensadores: no espaço deste último mês perdi mais seis quilos, graças à conjugação "reeducação alimentar + exercício físico + medicação", e reduzi a minha cintura (o famoso e perigoso perímetro abdominal) em 7 cm. Isto significa que desde que iniciei o tratamento na APDP, perdi 12 quilos e 22 centímetros de barriga. O resultado é ainda mais espantoso se recuar a abril, quando me inscrevi no ginásio. Em seis meses perdi 23 quilos. Não é gralha, são mesmo 23 quilos. O meu índice de massa corporal baixou 5 pontos percentuais. Na prática isto diz uma coisa fundamental: é preciso continuar este caminho. Mas cá dentro,  meus amigos, cá dentro da cabeça é uma enorme volta. A começar pelo rótulo. Desde hoje deixei de ser um Obeso Grau III, e passei a ser um Obeso de Grau II. Pior ainda: abandonei, de acordo com os padrões de aferição do IMC (índice de massa corporal), o pavoroso escalão da Obesidade Mórbida. As palavras não são ocas, têm significado, têm peso. E às vezes, mesmo para um tipo bem resolvido e com uma autoestima alta, as palavras pesam toneladas.

No domingo passado passei pelo CascaiShopping e comprei um par de calças. Constatei que o meu número (aquele que tinha comprado há um mês e meio, quatro números abaixo do que vestia há quatro meses) já era grande de mais. A funcionária sugeriu-me um número abaixo. Ainda ficavam a bailar. Foram dois números abaixo. Ou seja, reduzi seis números (equivalente a 12, uma vez que as calças saltam de dois em dois...). 

Ao longos dos últimos dias, nas redes sociais, tenho colocado fotografias e rececebido centenas de simpáticos "likes" e dezenas de calorosos comentários. Com alguns emocionei-me. Outros fizeram-se sorrir. A todos agradeço. Muitos tinham um denominador comum: por um lado, o espanto e as felicitações; por outro, a ideia subjacente à frase "como vês, o esforço compensa". Tenho pensado muito nisso, nesta última ideia. Mas qual esforço? Acreditem, não estou a fazer género. E percebo que seja difícil perceber que esteja a ser sincero. Se fosse verdade, se fosse fácil perder peso no meu caso, não teria ultrapassado os 140 quilos, como cheguei a pesar. Mas, para ser honesto comigo, tenho de vos dizer: não tem havido esforço. Tem havido rigor, força de vontade, capacidade de resistência, uma grande entrega e, mais importante que tudo, um grande respeito por mim. É isso mesmo. Um grande respeito por mim. Mas esforço? Não. Habituei-me a fazer exercício físico porque era imprescindível. Tinha de ser. Hoje apaixonei-me por caminhadas.

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Tanto que, como sabem, no domingo passado me inscrei na primeira prova coletiva da minha vida. Foi a Mini Maratona de Lisboa, na Ponte Vasco da Gama. Mas quando cruzei a meta, ao fim de 6,5 quilómetros, senti que queria mais. E continuei, junto à margem do Tejo, até que cheguei ao Lux, onde chamei um Uber. No total do dia, tinha caminhado 14,9 quilómetros!

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Foi a minha primeira vez. Teve um simbolismo especial. Fui sozinho, não encontrei lá qualquer amigo dos que me disseram que também iam. Eram milhares de pessoas, seria a mesma dose de fortuna do que encontrar uma agulha no palheiro. Mas aquele sentimento de partilha, de comunhão, aquela sensação de que estávamos todos ao mesmo, foi magnífica. Tal como eu centenas de pessoas fizeram a prova a caminhar. Havia pais com crianças, havia carrinhos de bebéis e até alguém que se juntou com um cão a meio do percurso. Escusam de perguntar: sim, emocionei-me quando cruzei a meta. Não pelos 6,5 quilómetros, mas porque tinha conseguido, porque tinha sido capaz de me expor uma vez mais, de partilhar com os outros as minhas fragilidades e forças.

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No final, à chegada à linha de meta, instalada na Alameda dos Oceanos, o meu amigo e companheiro de trabalho Rodrigo Cabrita, um magnífico fotojornalista que estava a trabalhar, registou o momento que fica para a posteridade. Tal como o dorsal 22521 e a medalha, anónima, banal e sem qualquer valor financeiro, mas que nunca vou esquecer e que guardarei sempre comigo.

Portanto, que fique claro. Sim, o sacrifício pode valer a pena. E há alturas na vida que podemos e devemos fazer sacrifícios, se eles nos levarem a bens maiores. E neste caso, o da minha saúde, faria tdos os sacrifícios necessários. Mas, acreditem, não tem sido. Tem sido uma redescoberta apaixonante. Contagiante porque visível todos os dias. 

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Acham este prato de robalo grelhado em cama de legumes um sacrifício? Eu cá não acho. Estava delicioso. E é mais uma prova, das muitas que aqui tenho deixado, que um diagnóstico de Diabetes não é uma gilhotina em cima da cabeça. Nem tão pouco uma prisão absoluta que nos obriga a comer coisas chatas todos os dias. Não posso comer rissóis, bolas de berlim, mousses de leite condensado, folhados de carne, cozidos à portuguesa e feijoadas todos os dias? Não, não posso. Ainda bem. É preciso regra, rigor, contenção, alguma capacidade de resistência, mas há tanta coisa boa que podemos reaprender a cozinhar e a comer que as outras vão deixar de fazer falta. E quando sentirmos falta, já sabem a minha dica, comam. Uma vez não vos fará mal. 

Este texto já vai longo e não vos quero maçar mais. Nem queria terminar com uma mensagem moralista. Já aqui vos disse: eu deixei de fumar há cinco anos porque quis, não foi porque li nos maços que fumar causava cancro ou impotência sexual. Há momentos para tudo. Nem sempre estamos preparados para esse momento. Não quero ser heroi de ninguém, nem exemplo do que quer que seja. Mas posso ser uma inspiração. Para mim tenho sido. E se comigo tem resultado, convosco também vai resultar. Acreditem, deem o primeiro passo, não desistam. E passem cá para contar. Façam like na página de Facebook do Tipo 2 e partilhem as vossas histórias. Se formos todos a puxar para o mesmo lado, talvez isto seja menos difícil...

 

 

 

 

 

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Não há como esconder, nem por que esconder: amanhã vai ser um dia muito importante para mim. 

Embora não tenha nada de esotérico, sou um tipo muito ligado aos simbolismos. Os gestos, as datas, os momentos, as viagens, os gostos, os abraços, os acontecimentos. 

Nesta fase da minha vida, mais ainda. E, portanto, para lá do 19 de junho, dia em que me foi diagnosticada a Diabetes Tipo 2, e que serviu para ativar a campainha que há dentro de nós, o dia de amanhã talvez seja o mais importante de todos. Amanhã, a esta hora, já estarei a percorrer a Ponte Vasco da Gama a pé, a fazer os primeiros quilómetros da Mini Maratona de Lisboa. 

Serão apenas sete quilómetros, bem menos do que ando habitualmente nas minhas caminhadas, mas estes são sete quilómetros diferentes. Pela primeira vez, decidi inscrever-me numa prova coletiva. Pela primeira vez, vou partilhar esta experiência com outras pessoas. Pela primeira vez, aceitei o desafio que me coloquei a mim próprio. Pela primeira vez vou estar acompanhado por gente que partilha o mesmo gosto ou necessidade de exercício físico, mesmo sabendo que, no final, estarei sozinho. Mas sei que, quando cruzar a meta, sem ligar ao tempo (na mini maratona, aliás, nem haverá cronometragem oficial), vou sentir um imenso orgulho e uma grande felicidade. Porque é a primeira vez. Porque é especial. Porque é mais um passo na minha caminhada.

Os útimos dias têm sido difíceis. Mas se há uma coisa em que não cedi foi o meu compromisso comigo mesmo. Continuo focado nos objetivos, no processo de reeducação alimentar, tomando a medicação que me foi preescrita e fazendo exercício físico (ora caminhada, ora ginásio).

Amanhã vai ser então o grande dia. Se querem que vos diga, estou um pouco nervoso. É um bocadinho como o primeiro dia de aulas. Haviam de me ter visto, sexta-feira à hora do almoço, na sala Tejo do Pavilhão Atlântico, quando fui levantar o dorsal. Nunca tinha feito nada do género. E, portanto, achei que chegava lá, tinha um guichet e pronto, davam-me o dorsal. Mas não. Quem já é um pro nestas coisas deve estar a rir-se neste momento: lá estavam várias bancas com os dorsais, várias bancas com as T-Shirts e depois toda a sorte de marcas de desporto a venderem acessórios, roupa, calçado, seguros e mais uma imensidão de artigos relacionados com o desporto. Faz todo o sentido, mas para mim foi uma surpresa.

Amanhã tenho de estar na Gare do Oriente às oito da manhã. Há autocarros especiais que nos levam para o ponto de partida, na Ponte Vasco da Gama. Às 10h30, dá-se o tiro de arranque: primeiro partem os da meia maratona, a correr, focados nos seus objetivos de tempo. Depois, para trás, ficam os da Mini Maratona. A maior parte, já me disseram, também vai a correr, mas, garantem, não serei o único a caminhar. Mesmo que seja. Vou ao meu ritmo.

Já tenho tudo preparado. O meu primeiro Kitt de competição está a postos para me embalar. No final, não haverá prémios. Apenas um simbolismo. Mas é um simbolismo que me vai marcar para sempre, quando lá para o meio dia e picos chegar à meta. Não sei se receberei algum aplauso no final. Não sei se receberei um sorriso ou um abraço. Mas nesse momento, nesse exato momento, quero pensar em mim. Quero sentir-me um vencedor. Quero aplaudir-me a mim próprio e confortar-me no meu próprio abraço. Acho que mereço.

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